Restaurante Amigo do Rei
O Irã no Brasil
A incrível história de guerras, aventuras,
poesia e temperos da iraniana radicada
em Belo Horizonte Nasrin Haddad
Battaglia, proprietária do único
restaurante persa da América do Sul |
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É uma aventura extraordinária nascer no Irã. Desde a infância, carregamos o pesado e agradável fardo de uma cultura milenar e crescemos cercados por paisagens e uma arquitetura de beleza singular.
É a mais antiga civilização no mundo e, diferentemente do que se acredita no Brasil, não se fala o árabe no Irã, mas o farsi. Nossa culinária é persa, ou iraniana, como preferirem, e não é nem parenta da árabe. Foi em Teerã que nasci e fui criada. Passei parte da minha vida sob o perigoso regime do xá do Irã: uma palavra contra o descaso que ele mantinha quanto à pobreza da população, ou contra seu monumental enriquecimento, e a pessoa desaparecia para sempre. |
Testemunhei os dez anos da guerra que Saddam Hussein travou contra o país – um de seus mísseis caiu a 200 metros da minha casa, destruindo a porta e algumas janelas.
Vivi também outra década sob o regime estabelecido pela revolução islâmica em 1979.
Em meio a tudo isso, havia um universo cheio de encantos. As restrições quanto às vestimentas que as mulheres usam na rua não valiam em casa. Nas festas, a portas cerradas, eram vistas roupas das coleções lançadas em Paris na semana anterior.
Outro encanto foi o meu aprendizado. Pelas mãos do meu pai fui conduzida ao universo da poesia e, pelas mãos de todas as mulheres da família, ao mundo da culinária, uma das jóias mais preciosas do Irã. Sem saber para que futuro me preparava, papai me levava sempre ao Grande Bazar de Teerã, onde me mostrava e ensinava os nomes das especiarias que mais adiante perfumariam meu destino no Brasil. Minha mãe, Parichere, exercia um rigor quase doentio na busca de uma leveza na execução das receitas e dela herdei esse traço. A comida é algo tão
forte que se infiltra nas minhas mais claras recordações de infância e juventude. Minha tia Hurí, sofisticada, costumava viajar para a Itália para comprar móveis e louça e ampliar seus horizontes na gastronomia. Novas portas se abriram quando fui convocada por ela para ajudar no preparo dos jantares que oferecia. Foi natural que mais tarde me associasse a uma amiga dotada de grande talento na cozinha. Montamos um bufê e, em seguida, uma pequena fábrica de doces.
Olhando o passado, fico com a impressão de que estava me preparando para ter um dia meu próprio restaurante, o que veio a acontecer quando me mudei para o Brasil.
Em 1988, conheci brasileiros que trabalhavam no Irã e me aproximei do staff da embaixada. Tenho um forte espírito de aventura e, quando vi que era possível obter um visto para o Brasil (para um iraniano, graças ao contínuo trabalho da mídia americana contra o país, é muito difícil obter um visto para qualquer lugar que seja), não tive dúvidas: resolvi testar o meu destino e embarquei para cá em 1990. Logo que cheguei, conheci o Carnaval e vi as pessoas mergulharem em diferentes graus de desespero quando a Zélia confiscou a poupança. Depois de três anos morando no Rio de Janeiro, casei-me com o artista plástico Cláudio Battaglia e fui morar em Paraty. Certo dia dei de presente de aniversário para um amigo mineiro um jantar persa. Os convidados acharam a coisa impressionante e insistiam que eu devia mostrar isso
profissionalmente.

Foi assim que, no natal de l998, abri o restaurante Amigo do Rei, nome que faz referência à poesia de Manoel Bandeira, “Vou-me embora pra Pasárgada”. Lembro que no Irã certa vez levei amigos brasileiros para conhecerem Pasárgada, as ruínas da primeira capital do império persa. Recitaram a famosa poesia e, mesmo ainda sem conhecer o português, tratei
de decorá-la. Quando Iramaya, nossa filha, fez 7 anos, achamos melhor sair de Paraty em busca de um lugar que oferecesse um ensino adequado. Belo Horizonte foi a escolha e é aqui que, no momento, empresto a minha vida ao Amigo do Rei, esse pequeno e simples templo de prazeres, com sete despretensiosas mesas. Desde que cheguei no Brasil, voltei ao Irã apenas uma vez, em 1997, a fim de que minha família, que lá reside e permanece, conhecesse Iramaya.
De lá para cá, a distância e o custo da viagem têm adiado uma nova visita. Mantemos contato por telefone, quase semanal, e por e-mail. Reservo para o fim desta pequena conversa a confissão de uma clara alegria: reconheço-me, sem sombra de dúvida, como um ser cortado ao meio. Sou 50% brasileira, 50% iraniana. Minha metade brasileira mergulha com facilidade nos encantos de um café com melado, de um curau de milho verde, da pamonha, da feijoada, de um café com banana da terra cozida, de um torresmo, Chico, Caetano, do samba. Quanto à metade iraniana, ela vibra com as lembranças do sorvete de açafrão com água de rosas, com as conversas das noites de inverno em torno de taças cheias de sementes de romã, com as tardes preguiçosas de primavera quando comíamos favas cozidas temperadas com golpar, uma erva iraniana. É a minha charrete para ir revelando no Brasil um mundo mágico de sabores desconhecidos.
Fonte: Revista VOGUE
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